quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Onde estou? Na penumbra.



Inevitavelmente existo, sem sombra de mim, sem o eco do sentir. A sombra, invisível, é ainda mais reveladora do que EU, portanto, ninguém vê, ouve, sente ou cheira. Assim sou EU, Daniele que todo mundo vê sem a sombra que está em toda a parte.

Se tenho um encontro marcado em determinada hora com a vida e mesmo sabendo que levarei três horas para chegar até ela, fico esperando o tempo me vencer. Com atraso, vou ao encontro dela e quando chego perto do local, percebo o grande milagre: estava chovendo enquanto eu caminhava e na chegada, pára de chover! As ruas estão ainda molhadas, as pessoas estão secando seus guarda-chuvas, outras, por teimosia, estão encharcadas de água. Uma pequena fresta de raios solares devolve-me o calor. Assim caminho contente em direção à vida. E ela, já impaciente com os meus atrasos, pergunta:

- Dani, por que se atrasou novamente?

E eu, num ímpeto, respondo da maneira mais natural possível:

- Estava chovendo!

É, minha realidade esconde-se na penumbra. Onde há a luz? E a escuridão?

Dani R.F.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Pavão


Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rubem Braga

Rio, novembro, 1958


Simples e ternas. Assim são as lindas crônicas de Rubem Braga.
Texto extraído do livro "Ai de ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149

"Qualquer semelhança é mera coincidência"




Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se
fosse real não me serviria. O que decalca ela,
então? Real, eu não a entenderia, mas gosto da
duplicata e a entendo. A cópia é sempre bonita.
Lispector. A paixão segundo G. H.



“Ulisses não tem
nada a ver com Ulisses de Joyce. Eu tentei ler Joyce mas parei porque ele era chato,
desculpe, Eduardo. Só que um chato genial”

Não gosto quando dizem que tenho afinidade com
Virginia Woolf: é que não quero perdoar o fato de ela
se ter suicidado.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Nostalgia

Tive uma pequena reminiscência
Daquela cidade congelada.
Seus casarões imutáveis
Resistiam aos séculos que aniquilam lembranças
E sepultam consigo os bons momentos.

Um pouco de nostalgia tomou conta de mim
A noite inerme revelava só ausência
Não havia aquela gente
Nem os mesmos aglomerados
E a baderna que agitava e consolava a escuridão.

Não fui advertida dos anos que se passaram
Iludi-me com a barraquinha de pipocas-doces
Senti o cheiro de hortelã da caipirinha baiana
O gosto doce estonteante do meu vinho
E uma alegria repentina invadiu-me como um tufão.


Fui buscar meu tempo perdido.
Mas não avistei a roda de samba no Largo de São Francisco
Não encontrei o casal de italianos que faziam pizzas parisienses
E nem pude desfrutar da agitação costumeira do São Jorge
Somente os sinos setecentistas das igrejas continuavam a anunciar o tempo passado.

Retornei para o instante vivo
Contentei-me com as frituras do simpático casal de velhinhos.
Exausta, procurei um abrigo para passar a noite
E foi naquele velho hotel rococó onde encontrei um pouco de esperança
Recordando as promessas de um tempo venturoso.

Na laje do hotel, descobri uma visão panorâmica da cidade envelhecida
As luzes dos casarões e avenidas harmonizavam-se com a noite solitária
Um casal de enamorados contemplava o ribeirão corrompido
E um homem, sentado em cima da ponte,
Pensava na morte, entorpecido.

A cidade viva e festiva,
Regada de boemia e pretensos amigos noturnos
Hoje está reduzida a pequenos estilhaços da memória.
Sinto-me agora expatriada do meu próprio lugar imaginário
Com minhas raízes extraídas desse chão que jamais pertenci.



Dani R.F.

.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Avenida


Em casos de flagrantes
A sodomia é poupada na noite
O caso é comum.
É a juventude se expressando
Jovens, amigas, efêmeras, alucinadas
Um abalo de estranhezas
“Vulvonares” compulsivas...

Correria nas ruas
As viagens nas madrugadas vazias,
São como tiros, projéteis dilacerantes
Onde perderão a força?...

É madrugada...
Na avenida a chuva cria a lama no jardim central
Eufóricas pelas sodas com vodca
Esfregam-se no pegajoso gramado
Ensopadas, se deliciam com as línguas bestiais
Rolam se pegando em unhas,
trançando as pernas,
esfolando as costas e os vestidos
e ali exauridas, adormecem.

O sol nublado rebusca a calçada,
os vestidos ainda úmidos,
manchados de lama e verde
Esqueceram de onde moravam
Ou talvez lhe faltaram forças para chegar em casa
Simplesmente repousaram na avenida principal.


Lucas F.L.