terça-feira, 3 de novembro de 2009

Poema de Finados



Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho em mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
 
Manuel Bandeira

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A correspondência


As pessoas se escrevem porque não podem se falar: o mais das vezes por causa da distância, da separação, de um espaço que as falas não podem transpor.

Esse foi durante séculos o único meio de dirigir-se aos ausentes, de levar o pensamento aonde o corpo não podia ir, aonde a voz não podia ir, e talvez esse seja o mais belo presente que a escrita deu aos viventes: permitir-lhes vencer o espaço, vencer a separação, sair da prisão do corpo, ao menos um pouco, ao menos pela linguagem.

Escrevemos nossas cartas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, apesar da separação, apesar do espaço, o pouco tempo que nos é dado em comum, para compartilhar alguma coisa, um acontecimento, ou um pensamento, uma emoção ou um sorriso, muitas vezes quase nada e esse é o essencial de nossas vidas, para compartilhar essa pobreza que somos, que vivemos, que nos faz e desfaz, antes que a morte nos pegue, para não renunciar, enquanto respiramos e sejam quais forem os quilômetros que nos separam, à doçura de viver juntos, em todo caso ao mesmo tempo, à doçura de compartilhar e de amar. Contemporâneos da mesma eternidade, que é hoje. Passantes da mesma passagem, que é o mundo.

Escrevo-te para dizer-te que te amo, ou que penso em ti, que me alegro, sim, de ser teu contemporâneo, de habitar o mesmo mundo, o mesmo tempo, de só estar separado de ti pelo espaço, não pelo coração, não pelo pensamento, não pela morte.

A escrita nasce da impossibilidade da fala, de sua dificuldade, de seus limites, de seu fracasso.

Por que escrever quando se pode falar-se, quando se fala efetivamente? Porque nem sempre se pode falar, nem de tudo, porque a fala pode criar obstáculo para a comunicação, por vezes, ou condená-la à tagarelice, porque é preciso ter tempo de ficar sozinho, porque é doce pensar no outro em sua ausência, ainda que se deva vê-lo no dia seguinte, dizer-lhe o lugar que ocupa em nossa vida, mesmo quando ele não está presente, em nosso coração, em nossa solidão.

Nossas cartas se parecem conosco, desde que o queiramos um pouco, e mesmo, às vezes, quando não o queremos. Frágeis como nós. Irrisórias como nós. Bela por vezes. Pobres e preciosas, corriqueiras e singulares, quase sempre. Um pouco de nossa alma introduziu-se ali, na pouca espessura de um envelope. Um pouco de nossa vida, na loucura do mundo. Um pouco do nosso amor, no deserto das cidades.

Por que se escreve uma carta? para habitarmos juntos a essencial solidão, a essencial separação, a essencial e comum fragilidade. Para descrever o tempo que está fazendo, o tempo que está passando. Para contar o que nos tornamos, o que somos, o que esperamos. Para exprimir a distância, sem a suprimir. O silêncio, sem o corromper. O eu, sem se fechar nele.

André Comte-Sponville, Bom Dia, Angústia!, do ensaio “A Correspondência”, pp. 35-44. excertos adaptados (Martins Fontes)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Onde estou? Na penumbra.



Inevitavelmente existo, sem sombra de mim, sem o eco do sentir. A sombra, invisível, é ainda mais reveladora do que EU, portanto, ninguém vê, ouve, sente ou cheira. Assim sou EU, Daniele que todo mundo vê sem a sombra que está em toda a parte.

Se tenho um encontro marcado em determinada hora com a vida e mesmo sabendo que levarei três horas para chegar até ela, fico esperando o tempo me vencer. Com atraso, vou ao encontro dela e quando chego perto do local, percebo o grande milagre: estava chovendo enquanto eu caminhava e na chegada, pára de chover! As ruas estão ainda molhadas, as pessoas estão secando seus guarda-chuvas, outras, por teimosia, estão encharcadas de água. Uma pequena fresta de raios solares devolve-me o calor. Assim caminho contente em direção à vida. E ela, já impaciente com os meus atrasos, pergunta:

- Dani, por que se atrasou novamente?

E eu, num ímpeto, respondo da maneira mais natural possível:

- Estava chovendo!

É, minha realidade esconde-se na penumbra. Onde há a luz? E a escuridão?

Dani R.F.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Pavão


Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rubem Braga

Rio, novembro, 1958


Simples e ternas. Assim são as lindas crônicas de Rubem Braga.
Texto extraído do livro "Ai de ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149

"Qualquer semelhança é mera coincidência"




Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se
fosse real não me serviria. O que decalca ela,
então? Real, eu não a entenderia, mas gosto da
duplicata e a entendo. A cópia é sempre bonita.
Lispector. A paixão segundo G. H.



“Ulisses não tem
nada a ver com Ulisses de Joyce. Eu tentei ler Joyce mas parei porque ele era chato,
desculpe, Eduardo. Só que um chato genial”

Não gosto quando dizem que tenho afinidade com
Virginia Woolf: é que não quero perdoar o fato de ela
se ter suicidado.