Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.
Paulo Leminski
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terça-feira, 19 de março de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
10 doencinhas básicas da poesia brasileira nos dias de hoje
- Livros de poesia são publicados antes dos poemas serem escritos;
- Os medíocres morrem de medo de plágio;
- Os palermas, epígonos & tietes são os primeiros que desistem de afundar navios;
- Os imbecis perderam a humildade;
- Apenas ouvir Caetano, Chico & Gil gera, num passe de mágica, poetas geniais;
- Ler não é um bom negócio;
- Por aqui não se entende nem o slogan dos grevistas da Lip:Produire autre chose, autrement; nem os versos de Ferlinghetti:Poets, come out of your closets, / Open your windows, open your doors, / You have been holed-up too long / in your closed worlds; nem a prosa de Roberto Bolaño: La vida hay que vivirla, en eso consiste todo. Me lo dijo un teporocho que me encontré el otro día al salir del bar La Mala Senda. La literatura no vale nada.;
- Continuam quase todos sentados na carteira da frente, de pau mole, treinando caligrafia com seus bonés bicolores com hélices amarelas & morrendo de medo de arruaça;
- Ninguém mais cultiva a própria vaia, é um país de “poetas” sérios;
- Querem (& estão conseguindo) encarcerar a poesia nos calabouços da cultura hagiográfica & acreditam piamente que um poema precisa pagar um boquete para bibliografias.
*
p.s.: para mim, a poesia de verdade, sangrenta, caminha pelas ruas, ouvindo Raimundo Soldado no mp3 player, tostando um baurets, comendo um PF no centro da cidade enquanto o sol alarga os planos de fuga. A poesia dá uma fodidinha aqui & ali – & pensa: antes uma gonorreia que versinhos sorridentes. A poesia toca o terror! A poesia é um coquetel molotov! A poesia quer é mais, bróder!
Fabiano Calixto
Do blog Meu pé de laranja mecânica
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Abstinência
Ventilador-teto-lâmpada
Livros e livros empilhados
A boca muda, a cabeça moída
E dedos que apertam as teclas
num tec tec frenético
Diagnóstico de médico:
Síndrome de túnel de carpo
Lesão por esforço repetitivo
Recebeu licença de 10 dias
Para abster-se do uso do mouse
E da punheta.
Dani Ribeiro
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Praça da Luz
O inverno escreve em maiúscula
sua barriga circense.
Namorados sem ritmo povoam o espaço
onde gengivas conspiram e chefes de família
promovem abafadas transações.
Um marreco aproveita a audiência
e se candidata a senador. Anjinhos
cacheados esvoaçam flâmulas
e hemorróidas, corpos horrendos se tocam.
Uma gargalhada despenca do cabide:
marcial
um cortejo de estátuas inaugura
o espantoso baile dos seres.
Antônio Carlos de Brito
quinta-feira, 31 de maio de 2012
A Piedade
Eu urrava nos poliedros da justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas por que navio bóia? por
que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos
Roberto Piva
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