sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

10 doencinhas básicas da poesia brasileira nos dias de hoje


  1. Livros de poesia são publicados antes dos poemas serem escritos;
  2. Os medíocres morrem de medo de plágio;
  3. Os palermas, epígonos & tietes são os primeiros que desistem de afundar navios;
  4. Os imbecis perderam a humildade;
  5. Apenas ouvir Caetano, Chico & Gil gera, num passe de mágica, poetas geniais;
  6. Ler não é um bom negócio;
  7. Por aqui não se entende nem o slogan dos grevistas da Lip:Produire autre chose, autrement; nem os versos de Ferlinghetti:Poets, come out of your closets, / Open your windows, open your doors, / You have been holed-up too long / in your closed worlds; nem a prosa de Roberto Bolaño: La vida hay que vivirla, en eso consiste todo. Me lo dijo un teporocho que me encontré el otro día al salir del bar La Mala Senda. La literatura no vale nada.;
  8. Continuam quase todos sentados na carteira da frente, de pau mole, treinando caligrafia com seus bonés bicolores com hélices amarelas & morrendo de medo de arruaça;
  9. Ninguém mais cultiva a própria vaia, é um país de “poetas” sérios;
  10.  Querem (& estão conseguindo) encarcerar a poesia nos calabouços da cultura hagiográfica & acreditam piamente que um poema precisa pagar um boquete para bibliografias.
*
p.s.: para mim, a poesia de verdade, sangrenta, caminha pelas ruas, ouvindo Raimundo Soldado no mp3 player, tostando um baurets, comendo um PF no centro da cidade enquanto o sol alarga os planos de fuga. A poesia dá uma fodidinha aqui & ali – & pensa: antes uma gonorreia que versinhos sorridentes. A poesia toca o terror! A poesia é um coquetel molotov! A poesia quer é mais, bróder!


Fabiano Calixto

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Abstinência




Ventilador-teto-lâmpada
Livros e livros empilhados
A boca muda, a cabeça moída
E dedos que apertam as teclas
num tec tec frenético

Diagnóstico de médico:
Síndrome de túnel de carpo
Lesão por esforço repetitivo

Recebeu licença de 10 dias
Para abster-se do uso do mouse

E da punheta.


Dani Ribeiro

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Praça da Luz


O inverno escreve em maiúscula
sua barriga circense.
Namorados sem ritmo povoam o espaço
onde gengivas conspiram e chefes de família
promovem abafadas transações.
Um marreco aproveita a audiência
e se candidata a senador. Anjinhos
cacheados esvoaçam flâmulas
e hemorróidas, corpos horrendos se tocam.
Uma gargalhada despenca do cabide:
                                              marcial
um cortejo de estátuas inaugura
o espantoso baile dos seres.


Antônio Carlos de Brito

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Piedade


Eu urrava nos poliedros da justiça meu momento abatido na extrema
      paliçada

os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
       aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
       fariam perguntas por que navio bóia? por
       que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
       fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
       todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos


Roberto Piva

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os filósofos


Ante o empolgamento
que foi galvanizando
sucessivamente
os frades copistas,
os geômetras,
os astrônomos,
os pálidos almirantes core suas lunetas,
os monarcas augustos com suas esferas armilares,
e os tabeliões
Ante as maravilhas da Ciência
e do Progresso Tecnológico,
Aconteceu que
os filósofos, pouco a pouco,
com suas idéias vagas,
suas caraminholas na cabeça,
um após outro,
entre chacotas mal disfarçadas,
foram sendo jogados ao mar,
tichipum, tichipum,
por cima do parapeito do convés
do Barco do Conhecimento
que navega por mares ignotos,
levando à proa
a orgulhosa máscara
de Francis Bacon...

Cuidado, Capitão,
Cuidado...


Carlos Saldanha