quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Piedade


Eu urrava nos poliedros da justiça meu momento abatido na extrema
      paliçada

os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
       aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
       fariam perguntas por que navio bóia? por
       que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
       fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
       todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos


Roberto Piva

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os filósofos


Ante o empolgamento
que foi galvanizando
sucessivamente
os frades copistas,
os geômetras,
os astrônomos,
os pálidos almirantes core suas lunetas,
os monarcas augustos com suas esferas armilares,
e os tabeliões
Ante as maravilhas da Ciência
e do Progresso Tecnológico,
Aconteceu que
os filósofos, pouco a pouco,
com suas idéias vagas,
suas caraminholas na cabeça,
um após outro,
entre chacotas mal disfarçadas,
foram sendo jogados ao mar,
tichipum, tichipum,
por cima do parapeito do convés
do Barco do Conhecimento
que navega por mares ignotos,
levando à proa
a orgulhosa máscara
de Francis Bacon...

Cuidado, Capitão,
Cuidado...


Carlos Saldanha

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Uma cidade


Com gula autofágica devoro a tarde
em que gestos antigos me modelaram
Há muito, extinto o olhar por descaso da retina,
vejo-me no que sou:
Arquitetura desolada –
restos de estômago e maxilar
com que devoro o tempo
e me devoro


Francisco Alvim

terça-feira, 22 de maio de 2012

Jogos Florais


JOGOS FLORAIS I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.


JOGOS FLORAIS II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)



Antônio Carlos de Brito

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O riso amarelo do medo


Brandindo um espadim
do melhor aço de Toledo
ele irrompeu pela Academia
Cabeças rolam por toda parte
é preciso defender o pão de nossos filhos
respeitar a autoridade
O atualíssimo evangelho dos discursos
diz que um deus nos fez desiguais


Francisco Alvim

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Leopoldo


Minha namorada cocainômana
me procura nas madrugadas
para dizer que me ama
Fico olhando as olheiras dela
(tão escuras quanto a noite lá fora)
onde escondo minha paixão
Quando nos amamos
peço que me bata
me maltrate fundo
pois amo demais meu amor
e as manhãs empalidecem rápido




Francisco Alvim

quinta-feira, 1 de março de 2012

Comum desacordo

Despertador em frenesi.

O casal acorda
reluta em amar de acordo
desfaz-se do nó da corda

Os cônjuges
desamarram-se
desalmam em si


Dani Ribeiro

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Depois do Carnaval



Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida. 


(...)


Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?

"Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos 
Y corremos..."


dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...


Cecília Meireles

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Espera da poesia



Absorvi mil impressões
expurguei outras mil
sem que me fosse possível descrever

essas percepções incômodas que zunem num

e  noutro momento

Estou com a alma de uma velha destoada

do canto falho, de visão opaca 

com este sentimento de quem fica 
à espera de algo

no embalo do vento

E Godot não vem
não vem não 
vem...

Dani Ribeiro

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Igreja


Tijolo
areia
andaime
água
tijolo.
O canto dos homens trabalhando trabalhando
mais perto do céu
cada vez mais perto
mais
- a torre.

E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando os geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul.
No adro ficou o ateu,
no alto fica Deus.
Domingo...
Bem bão! Bem bão!
Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Amora

Na casa de fundo do bairro Ipês
a mulher na sua ira claustrofóbica
ateou fogo nos sofás
quebrou a “tevê”
tentou suicídio. 

Hoje de manhãzinha
vejo-a da janela
deitada sobre a calçada.
A mulher namora
   um novo amor
debaixo de um pé
            de amora.

Dani Ribeiro

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Overdose

Quero que a música 'exploda' minha cabeça
e seja minha causa mortis

Noitada:
Toca raul na guitarra hendrix cantando arrigo barnabé - malditos bem ditos improvisos do jazz e clássico se fundem em burt bacharach

...

Programação:
Tem rock in rolling stones e as mutações de mutantes
a gaita que chora de junior wells na presença de edith piaf
elis cantado águas de março que acabou chorare
noel rosa no boteco e a malandragem de chico
o lado B dos beatles e lado A de art ensemble of chicago
bossa velha e nova tropicalia no samba que desceu do morro até novos baianos em busca do folclore seco & molhado matogrosso
tem vanguarda paulista no itamar assumpção e muitos carnavais em woodstock com a jovem guarda

...
Extra:
Anjo torto muito louco deixa jards macalé e faz cabeça de nara 'leãozinho' de caetano

billie holiday acompanhada do índio morrison viaja num yellow submarine e descobre aquarela do brasil e o candomblé de vinícius

jovens de seatlle colocam pé na estrada e vão parar no nordeste pra ver o baião de gonzaga e maracatu atômico.
o lobo howlin flerta garota de ipanema de jobim vestida de winehouse
o rei miles davis improvisa com o trompete de chet baker e faz a dancinha de elvis.

São jorge ben transa no clube da esquina e descobre mineirices.
...

Dani Ribeiro

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Drama em três atos

                 I
Da ultima chuva que caiu
num acorde harmônico
criado numa ficção
neorromântica pseudo-erótica
Lola atuou com magnificência
O palco rastejou ao seu pés
e a plateia sugou-lhe a torpeza
 

                 II
noventa dias e um monodrama
pintado de nude e escarlate
escancarou-se a face dissimulada
- Esculpiram a safadeza! 


                 III
Lola feito cama leoa
rasgue o vestido
dispa a pele parda
Enerve sua cara pálida
Pra ver se dessa sua languidez enjoada
saia algum torpe excremento.

Dani Ribeiro

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Oswald Morto


Retrato de Oswald de Andrade, 1922 -
 Tarsila do Amaral



Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)


As escolas e as usinas paulistas
não se detiveram
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio

Quanto mais pressa mais vagar


O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional


NOTA:
fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswaldo de Andrade ajudou o crepúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954


Ferreira Gullar

domingo, 23 de outubro de 2011

Poente

Impression Sunrise - Claude Monet 


A toda poesia
inflamada de fogo
mas que não queima,
deixa apenas
o clarão
antes de se esconder
atrás de um vasto
montanhoso

E aí a gente pensa
que a poesia foi-se embora
versando o
adeus.
E então
ela faz a rima
sempre oculta
calada
da noite escura
brincando de
deus

E a gente fica
feito matuto
só na escuta
achando que a gente é feito
de carne e osso
ego e oco,
enquanto o poente tece
em prosa e verso
o que o nascente faz
em verso e prosa


A poesia está onde nada se ouve
mas a gente sente

sê inteiro”
poente-nascente

Dani Ribeiro



sábado, 22 de outubro de 2011

Lepra




Aquelas casas velhas
de respiração chiada
cheiram Alzheimer com rum

Quanto mais as olho
mais minha sinusite lateja
a boca solfeja
“filarmônica-débil”

Aí eu corro com o peito magro
vacilando na calçada que é pura dismnésia

Paro na esquina
e tento perceber
que já estou farto do Barroco

Ofegante
sento de frente para igreja
e vem aquele louco
argentino
vendendo seus chinelos...

Se vou abrir aquela garrafa

é pura invenção.
Em Del Rei
pouco me vale uma rua

Lucas FL.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Irgocentrismos



Miméticaminhos

Em matéria de vida imito o mineiro
pá e lavra
pés mesclados na água
castelo de pedra erguido na areia

procurar na lama no lodo nos lados
pescar pedra e pó com peneira
pepitas preciosas deamantes
incrustados em cada instante

tirar da corrente
salvar da correnteza
que corre parada
e nunca é a mesma

Talvez na praia nas noites do diàdia
eu encontre um bruto diamante
ou quem sabe, a brutal -

Poesia

...

não há um Outro
que me habita
há Outros
e são Tantos

que me perco em meio
a mantos
a máscaras
e panos

há o olhar
o não lugar
sem olhos ou corpos
e estou lá

há sonhos enterrados
espelhos
desejos
e cacos

não há eu (para perder-se)
há falta
há nós
e os laços

há uma cidade
de muitas ruas
com seus becos

e buracos

...

Bêbado.

Menos de bebida
que de sonho

de olhar e ouvir
e falar e sentir

noiteahnoite o dia
além da luz

No encontro dos olhos
dos corpos do copos

receosos tilintantes
corações cheio de sangue

enquanto vida e
enquanto dor

cheios de algo bombeando o Ir
seja pra onde for

tremendo de coragem
de frio

de amor

...



agora que você viu
bem visto
bem vestido

o teatro
os contentes

aprenderá
a atuar?



Igor Alves
Mais poemas podem ser encontrados no blog CANTOS NOS CANTOS

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tragédia de Jornal

O jornal da banca anuncia
estampada na primeira capa
a morte da égua atropelada

seu dono e velho amigo
vindo lá dos canaviais
chora a morte, estarrecido.

E como se não bastasse o triste fim
como se não bastasse
o sofrimento
daquela gente
dos canaviais
dias depois
um caminhão carregado de cana
cruza de frente na terra da estrada
e o homem tem sua cabeça decepada


Na notícia do jornal
eu pergunto àquele senhor
dono da banca
que vende ilusões
que vende a desgraça
e o tédio cotidiano:
Onde foi parar a poesia
da tragédia daquele camarada?

Dani R. F.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Poeta do Castelo

Curta de 1957 dirigida por Joaquim Pedro de Andrade, mostra com tamanha beleza a simplicidade cotidiana, a monotonia e a solidão, tão presentes na obra e vida do poeta Manuel Bandeira. Jóia rara!


Já aqui, com imagens de 'O Poeta do Castelo', o poema "Trem de Ferro" musicado por Tom Jobim.