quarta-feira, 23 de maio de 2012

Uma cidade


Com gula autofágica devoro a tarde
em que gestos antigos me modelaram
Há muito, extinto o olhar por descaso da retina,
vejo-me no que sou:
Arquitetura desolada –
restos de estômago e maxilar
com que devoro o tempo
e me devoro


Francisco Alvim

terça-feira, 22 de maio de 2012

Jogos Florais


JOGOS FLORAIS I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.


JOGOS FLORAIS II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)



Antônio Carlos de Brito

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O riso amarelo do medo


Brandindo um espadim
do melhor aço de Toledo
ele irrompeu pela Academia
Cabeças rolam por toda parte
é preciso defender o pão de nossos filhos
respeitar a autoridade
O atualíssimo evangelho dos discursos
diz que um deus nos fez desiguais


Francisco Alvim

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Leopoldo


Minha namorada cocainômana
me procura nas madrugadas
para dizer que me ama
Fico olhando as olheiras dela
(tão escuras quanto a noite lá fora)
onde escondo minha paixão
Quando nos amamos
peço que me bata
me maltrate fundo
pois amo demais meu amor
e as manhãs empalidecem rápido




Francisco Alvim

quinta-feira, 1 de março de 2012

Comum desacordo

Despertador em frenesi.

O casal acorda
reluta em amar de acordo
desfaz-se do nó da corda

Os cônjuges
desamarram-se
desalmam em si


Dani Ribeiro