quinta-feira, 1 de março de 2012

Comum desacordo

Despertador em frenesi.

O casal acorda
reluta em amar de acordo
desfaz-se do nó da corda

Os cônjuges
desamarram-se
desalmam em si


Dani Ribeiro

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Depois do Carnaval



Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida. 


(...)


Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?

"Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos 
Y corremos..."


dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...


Cecília Meireles

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Espera da poesia



Absorvi mil impressões
expurguei outras mil
sem que me fosse possível descrever

essas percepções incômodas que zunem num

e  noutro momento

Estou com a alma de uma velha destoada

do canto falho, de visão opaca 

com este sentimento de quem fica 
à espera de algo

no embalo do vento

E Godot não vem
não vem não 
vem...

Dani Ribeiro

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Igreja


Tijolo
areia
andaime
água
tijolo.
O canto dos homens trabalhando trabalhando
mais perto do céu
cada vez mais perto
mais
- a torre.

E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando os geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul.
No adro ficou o ateu,
no alto fica Deus.
Domingo...
Bem bão! Bem bão!
Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.



Carlos Drummond de Andrade