domingo, 29 de maio de 2011

Notas de uma decepção amorosa

I
de gole
em gole
vai embora
o meu amor

engole
do bico
já que
não peço
nem fico


II
Chorou até cansar
Sentiu na face o desprezo
do tão-pouco-amor desfeito


III
Irradiou beleza e ferida
e foi ali na esquina
que foi encontrada vestida
de casaco e anestesia


IV
Me pare na rua
me faz ser de conta sua
só de conta
no vermelho
que me devolvo-lhe
ainda nua


V
Ouvi dizer que amores partidos
fazem versos e poesias
no gole,
no desprezo,
na esquina,
no faz-de-conta
Mas só encontro lamúrias
declamadas em demasia


VI
Vou embora, amor
vou fazer verão
mas não se preocupe
que ainda aqui
eu deixo uma flor

Morrer!


Dani R.F.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Acomodação



Dez cômodos de desordem incômoda
O mal-cheiro que vem do banheiro
Roupas e meias sujas espalhadas no chão
Tropeços freqüentes nos móveis e sapatos
Enroscados em fios de cabelo e aranha

Menina que se perde nos cômodos incômodos
Inspira, expira e engole poeira
Titubeia, hesita, e depois esperneia
Se joga, adormece, convalesce e se arranha

A cômoda, um depósito de remédios
Antibióticos, cápsulas, tarja preta, anestésicos
No lixo, cremes jorrados dos tubos vaginais
Papéis higiênicos que transbordam em demasia
O caos estático e bem-feito por conseguir tal façanha.

E os cômodos da menina que pouco se incomoda
Mordisca, belisca, come e cospe unhas
Dança, descansa e volta a se cansar
Pois sabe que lá fora da vida se apanha.

Pobre menina,
Até o dia em que percebe
que os cômodos já não lhe são mais cômodos.
Se perde, se acha e tranca a porta
Joga a chave no ralo e pouco se estranha.

Dani R. F.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bar Verde

Músico - Hugo Escobar

O pedreiro não poupa sua amargura nem num bar
Come jiló.
Os trocados miúdos do bolso
amassados
sujos
escassos

É unha suja
banha frita no aquecedor
seresteiro bodado
Um verso esquecido
uma serenata cantada...
E a indiferença de quem passa lá fora

O artista não é o que toca o violão de segunda,
mas sim o negro com os dois braços quebrados e gessados
que caiu da bicicleta ao sair trêbado do buteco

LucasFL. e Dani RF.

domingo, 24 de abril de 2011

Mesmice



Cabelos ondulados levemente tingidos
Versava alguma poesia que não ousasse dizer

O “nó da garganta” deslizando em seus dedos
À espera do dito que a ela foi negado

O passo e a sandália abotinada nos pés
As unhas refeitas para serem esquecidas

E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
Criando o seu tempo de trás para frente


A noite presente na ausência de corpo
O vício sustentado pela cobiça de fuga

Os trajes despidos, a carne branca e nua
O desejo contido em toques de mão fria

E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
manipulando o seu tempo de trás para frente

Dani R.F.

terça-feira, 29 de março de 2011

A Dama do Carnaval

Konstantin Somov


Está vendo aquela mulher ali, sinhô. Preste bem atenção, repare em como ela é tão agradável, maquinalmente trabalhada com tanta perfeição e delicadeza. Olha só os seus gestos, olha como ela toca na xícara de café e bebe com tanta afinação. Veja só como ela se porta, como se senta com elegância! Sinhô, essa beldade parece ser gente finíssima, parece ser gente importante, educada, civilizada. Essa mulher que tu vê agora, ninguém é capaz de imaginar que um dia ela olharia para você. Mas sinhô, pois eu vou te contar uma coisa que o sinhô não vai acreditar. Sabe do último carnaval? É, esse mesmo, e lá estava ela, com a mesma beleza que você vê agora, com o mesmo encanto, a mesma formosura. Diria que até mais charmosa, mais à vontade, mais alegre! Pois sinhô, essa mulher de quem eu falo agora, me cortejou sinhô. Eu juro pro santo mais santo e pela minha mãe mortinha que não estou mentindo pro sinhô. Nem eu mesmo acreditei no que acontecia sinhô. E era ela mesmo, essa mesma mulher que dançava em meio ao bloco de carnaval, com seu fino pescoço enrolado em algumas serpentinas de papel e o cabelo cheio de confetes. E essa mesma mulher, sinhô, chegou junto a mim e me lascou um beijo que eu quase tive um enfarto. Minha boca ficou seca de tanto nervosismo, essa parte eu não gosto nem de me alembrar. Eu gaguejei, tremi, suei frio... Mas sinhô, como eu poderia reagir diante de um mulherão desse dando corda pra mim? Sinhô, tu me conhece bem, tu sabe que eu sou um homem simples, sou de muita conversa não, mas eu sou macho, pego qualquer mulherzinha que vem dando mole pra cima de mim... Ah, mas essa aí, nunca tive o prazer não, é muita areia para o meu caminhão. E vou te contar mais, sinhô. Ela me chamou pro bar e ainda bebemos cachaça, sinhô. É isso mesmo que o sinhô está ouvindo. Essa mulher que agora está toda senhora bebendo café, chegou a beber pinga comigo, e que nem homem, sem frescurinha, sinhô. Nunca vi mulher tão chique bebendo pinga desse jeito. Eu achei que estava ficando maluco, sinhô. Mas juro pra você que não, o sinhô é homem estudado, entende das coisas, saberia se eu estivesse ficando louco agora. E sabe o que aconteceu depois que ficamos tudo soltinho? Ah, essa é a melhor parte da estória, sinhô, escuta só. Nós fomos pra lá da rua de baixo, naquela esquininha depois da mercearia do Seu Jô. Sinhô, eu poderia te contar os detalhes do que aconteceu, mas pelo Santo Deus, isso é pecado sinhô. Minha mãe do céu não merece ouvir essas coisas não. Que o pai nosso me dê o perdão, no carnaval a gente não pensa muito nessas coisas não, sinhô. Pois eu vou te dizer só mais uma coisa sinhô, de todas as mulheres da vida com quem já estive, nenhuma foi que nem essa, sinhô. 

Dani R. F.