domingo, 24 de abril de 2011

Mesmice



Cabelos ondulados levemente tingidos
Versava alguma poesia que não ousasse dizer

O “nó da garganta” deslizando em seus dedos
À espera do dito que a ela foi negado

O passo e a sandália abotinada nos pés
As unhas refeitas para serem esquecidas

E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
Criando o seu tempo de trás para frente


A noite presente na ausência de corpo
O vício sustentado pela cobiça de fuga

Os trajes despidos, a carne branca e nua
O desejo contido em toques de mão fria

E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
manipulando o seu tempo de trás para frente

Dani R.F.

terça-feira, 29 de março de 2011

A Dama do Carnaval

Konstantin Somov


Está vendo aquela mulher ali, sinhô. Preste bem atenção, repare em como ela é tão agradável, maquinalmente trabalhada com tanta perfeição e delicadeza. Olha só os seus gestos, olha como ela toca na xícara de café e bebe com tanta afinação. Veja só como ela se porta, como se senta com elegância! Sinhô, essa beldade parece ser gente finíssima, parece ser gente importante, educada, civilizada. Essa mulher que tu vê agora, ninguém é capaz de imaginar que um dia ela olharia para você. Mas sinhô, pois eu vou te contar uma coisa que o sinhô não vai acreditar. Sabe do último carnaval? É, esse mesmo, e lá estava ela, com a mesma beleza que você vê agora, com o mesmo encanto, a mesma formosura. Diria que até mais charmosa, mais à vontade, mais alegre! Pois sinhô, essa mulher de quem eu falo agora, me cortejou sinhô. Eu juro pro santo mais santo e pela minha mãe mortinha que não estou mentindo pro sinhô. Nem eu mesmo acreditei no que acontecia sinhô. E era ela mesmo, essa mesma mulher que dançava em meio ao bloco de carnaval, com seu fino pescoço enrolado em algumas serpentinas de papel e o cabelo cheio de confetes. E essa mesma mulher, sinhô, chegou junto a mim e me lascou um beijo que eu quase tive um enfarto. Minha boca ficou seca de tanto nervosismo, essa parte eu não gosto nem de me alembrar. Eu gaguejei, tremi, suei frio... Mas sinhô, como eu poderia reagir diante de um mulherão desse dando corda pra mim? Sinhô, tu me conhece bem, tu sabe que eu sou um homem simples, sou de muita conversa não, mas eu sou macho, pego qualquer mulherzinha que vem dando mole pra cima de mim... Ah, mas essa aí, nunca tive o prazer não, é muita areia para o meu caminhão. E vou te contar mais, sinhô. Ela me chamou pro bar e ainda bebemos cachaça, sinhô. É isso mesmo que o sinhô está ouvindo. Essa mulher que agora está toda senhora bebendo café, chegou a beber pinga comigo, e que nem homem, sem frescurinha, sinhô. Nunca vi mulher tão chique bebendo pinga desse jeito. Eu achei que estava ficando maluco, sinhô. Mas juro pra você que não, o sinhô é homem estudado, entende das coisas, saberia se eu estivesse ficando louco agora. E sabe o que aconteceu depois que ficamos tudo soltinho? Ah, essa é a melhor parte da estória, sinhô, escuta só. Nós fomos pra lá da rua de baixo, naquela esquininha depois da mercearia do Seu Jô. Sinhô, eu poderia te contar os detalhes do que aconteceu, mas pelo Santo Deus, isso é pecado sinhô. Minha mãe do céu não merece ouvir essas coisas não. Que o pai nosso me dê o perdão, no carnaval a gente não pensa muito nessas coisas não, sinhô. Pois eu vou te dizer só mais uma coisa sinhô, de todas as mulheres da vida com quem já estive, nenhuma foi que nem essa, sinhô. 

Dani R. F.

sábado, 12 de março de 2011

A solidão é absoluta



JOHAN: 
Não há muito tempo eu morava aqui em casa. Nessa altura, tudo o que nos rodeava era decisivamente importante. Nós éramos obrigados a ritualizar a segurança.

MARIANNE:
Não entendo o que você quer dizer.

JOHAN: 
Toda a segurança estava ligada àquilo que existia fora de nós mesmos. Os nossos pertences, a nossa casa de campo, o apartamento, os amigos, os rendimentos, a comida, os feriados, nossos pais.

MARIANNE: 
Por que razão nós deixamos de mostrar carinho um para o outro, Johan? Por que razão é que nós quase não nos beijávamos? E nos acariciávamos um ao outro somente quando fazíamos amor? Por que razão é que nós não brincávamos um pouco com as crianças?

JOHAN: 
Você quer saber em que consiste minha segurança? Vou lhe contar. Eu penso assim: a solidão é absoluta. É uma ilusão uma pessoa convencer-se de outra coisa. (…) Não acredite nunca que você poderá quebrar a solidão. Ela é absoluta. Você poderá fazer poesia sobre a coexistência em vários planos, mas ainda assim será apenas poesia sobre religião, política, amor, arte, e assim por diante. A solidão é total da mesma maneira. A ratoeira está na possibilidade de ela poder ser alguma vez denominada por uma miragem de coexistência. Esteja consciente de que é uma ilusão. Assim, você não ficará decepcionada depois, quando tudo voltar ao seu normal. Uma pessoa tem de viver pelo instinto da solidão absoluta. Nessa altura, a pessoa deixa de lamentar-se, deixa de afligir-se. É aí que a pessoa, de fato, passa a sentir-se bastante segura e aprende a aceitar a falta de sentido da vida com uma certa satisfação. (…)

MARIANNE:
Eu desejaria estar tão certa como você.

JOHAN: 
Palavras, palavras, só palavras. A gente usa as palavras para esconjurar o grande vazio. Aliás, é estranho. Você já pensou como o vazio faz mal? 


(Roteiro de "Cenas de um casamento" de Ingmar Bergman)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Isqueiro


Você e sua voz arranhada...


perdeu o juízo?
ou acabou...



Quem te viu...


Apenas delírios obscenos...


Queimamos a nossa grana
ateamos fogo em nossas coisas


Deve ter um livro em brasa
ou um cão carbonizado



Lucas FL.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Declínio

A Odalisca - Matisse


As mãos suadas esfregavam-se na calça jeans. Ela não gostava de sentir suas mãos úmidas. Ao alisar os cabelos, fios e fios caiam pelo chão devido à oleosidade. Recolhia-os e partia ao meio como um gesto de alívio. A fragilidade dos fios causava-lhe um certo consolo. Sua beleza a cansara tanto que fizera com que ela procurasse, a todo instante, um pequeno descuido destrutivo.
Desejava ardentemente o aparecimento de espinhas em seu rosto só para ter o prazer de espremê-las e ver sair o pus branco. Ela dizia que a sensação era semelhante à de um orgasmo, e o pus, ao de uma porra bem gozada. Seu empenho por comprimir aquelas tão bem-vindas espinhas valia mais do que um belo e harmonioso rosto marcado.
Mordiscava suas unhas e deixara de pintá-las. As vezes, alguma sujeira acumulava, e ela limpava-as com os dentes.
Não tinha os mesmos cuidados com os dentes que, outrora alvos, agora já apresentavam alguns sinais de amarelamento. Parara de passar fio-dental e frequentemente dormia sem escová-los. Só fazia isso quando não suportava mais o seu hálito.
Mas durante algumas ligeiras noites... transformava-se numa mulherzinha quase perfeita e formosa. Saía pela rua, e o pus noturno se transformava em um sêmen jorrado em sua entranhas.  

Dani R. F.