quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chanson D'Amour

O que quer que pensasse, 
tudo voltaria a chanson d'amour
Havia insetos em volta da luz 
já se passavam das vinte horas 
retirou das unhas o esmalte azul 
de azul só ficou o blues da vitrola
Mas que quer que cantasse 
acabaria cantando a chanson d'amour
Terminou uma parte do desenho 
trocou umas palavras com a criança 
pensou na noite que chegara com receio 
desejou profundamente uma grande mudança
mas o que quer que desejasse 
desejaria de novo a chanson d'amour
Quis uma garrafa de um destilado 
lembrando do olhar daquele cantor 
aquele seu ar francês e seus cigarros 
cantando a frase da madrugada anterior
o que quer que lembrasse 
lembraria da chanson d'amour
que gosto de cais havia deixado tal madrugada. 
gosto de perfume amadeirado e cigarro caro 
que gosto de cinema, de Jean-Luc Godard 
gosto de chapéu preto e uísque barato
o que quer que fumasse 
ela fumaria a chanson d'amour
desejar o impossível é uma tolice 
uma tolice deliciosamente saborosa 
ela não deixou de lado essa crendice 
e acompanhou com um copo de vodka
e o que quer que bebesse 
beberia da chanson d'amour
afinal, uma nova noite começara 
e havia uma outra perspectiva ainda 
um perfume diferente ela borrifara 
e à nova noite desejou boas-vindas
mas no final do disco 
havia a chanson d'amour

sábado, 1 de janeiro de 2011

A um qualquer


Vou sair em busca do amor em qualquer esquina,
Vou oferecê-lo à primeira roda de amigos,
Cantarei em versos na porta de um bar,
Regarei a flor com vinhos e mijos.

E na busca, encontrá-lo-ei no fundo do copo,
Bebê-lo-ei até a última gota
E depois guardarei dentro de uma garrafa
Com o gosto dele amargando a boca.

E todos os dias, alimentarei o amor
Com gosto de mel e dose de cachaça
Para que ele não acorde sóbrio
E não perca o fôlego depois da ressaca.

O meu amor renascerá bêbado todos os dias
Em todos os cantos da cidade vazia.
O meu amor não perderá seu fogo
E nem se queimará fazendo acrobacias.

O meu amor será alcoólatra
Com sede de arte e ânsia do tédio.

Dani R. F.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
Fe quando eu menino,
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

Manuel Bandeira

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Sofá


Um quase-luxo
Um pequeno descuido.

O assento digno do sofá
Servia obediente às bundas
Fedidas, cheirosas,
Gordas, magras
Lisas, peludas
Esculpidas ou com celulites

Da chegada à visita
Uma preguiça crônica
Um descanso do cansaço
Cabeças imbuídas de imagens televisivas

No centro do pomposo sofá
Uma mancha imperceptível
Coberta pelas nádegas

Era ele, o sofá
ora servido ao deleite dos prazeres
ora servido ao social de acomodar as bundas

Dani R. F.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Descarrego



Ela mal sabia que descolorir os rabiscos chapiscados tornaria-a menos benevolente com seus ímpetos. Mariana desconcertava cada letra da sua estória. Estava determinada a não seguir o percurso. Entre o trabalho às seis horas da manhã, com olheiras que encobriam a suavidade do seu olhar, ela maquiava-se toda, maquiava o sorriso do bom-dia. Enfrentava pessoas e papeladas. Resolvia os problemas do trabalho que mal cabiam em sua caderneta de anotações. Esperava as horas ganharem ânimo. A sua vontade era dependente do ponteiro do relógio. Esperava.
À noite, ela desprendia-se. Já tendo conquistado sua ilusória autonomia, Mariana não encostava suas manias infantis, desarrumava sua cama com bichos de pelúcia e quarto com decoração verde-musgo. Lia um livro que costumeiramente ficava sobre a cômoda empoeirada de pensamentos frívolos e alimentava seus caprichos com uma pequena dose de vinho ou vodca. Agarrada ao seu travesseiro de infância, masturbava-se para aliviar as tensões do dia. O travesseiro infantil, tão íntimo as suas vontades, transformava-se até virar um objeto fálico. Mariana não se arrependia. Do orgasmo colossal ao cansaço físico, o seu travesseiro continuava casto como sua remota infância, mesmo com as manchas do gozo e o escurecimento devido ao excesso da fumaça de cigarro. E dia após dia, de personalidades aparentemente alternadas, uma menina com rosto de menina e com vontades de mulher, tudo variava de acordo com as exigências. Mariana só não gostava de perder a linha, apesar de ter encontrado os dois caminhos...

Dani R. F.