quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vinte e Quatro Orquídeas


Em solo incrédulo
Entediada com o outono atemporal
A orquídea ainda amadurece.
Estação lenta
beira a extática.
Engraçado que...
a beleza deflorada pelo tempo
atrai.

De orquídea a planta carnívora
a mosca
ou o inseto atraído
é sugado pelo delírio
da pequena morte.

Quando o mosquito não é devorado
senta-se nas bordas do pequeno vaso
e com um copo
contempla a bela flor
que as vezes é poesia.

Não sei ao certo,
mas os vinte e quatro anos de uma mulher
seria talvez essa orquídea branca.

bela

incrédula

entediada

traiçoeira

delicada

e outonal.


Lucas F.L.
* Esse poema foi dedicado a mim, que faço anos hoje!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Manifesto Concepcionista




1. Morte ao ego. 


2. Ser uma nova personalidade a cada dia. 

3. Toda memória deve ser apagada.

4. O dinheiro deve ser abolido.

5. A humanidade está doente, o concepcionismo é o caminho para a cura.

6. O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas. 

7. O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

8.Todo o concepcionista deve dormir nu como uma forma de purificação. 

9. Voa! 

10. Tudo o que foi dito deve ser esquecido agora.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Baco




Badalam os sinos da torre, já é meia-noite. A igreja acentua os mistérios dos anjos, e a iluminação permite ver vagamente a sua escultura perfeita e simétrica. A rua está deserta, prevalecendo o silencio e o uivo do vento invernal. A igreja, com seu ar barroco, toma a frente como majestade e poderosa, mãe das noites, dos enamorados, dos pecadores e dos boêmios. Mas ela não está só, apesar da sua presença soberba, mora ao lado a acanhada casa. De repente, as portas se abrem, e a movimentação de mesa e cadeiras se arrastando para seu devido lugar, pratos e copos sendo lavados, e um grupo de homens e mulheres se dirigem ao local. Ainda o barulho é mínimo. Todos conversam discretamente, talvez tomando cautela de não incomodar as casas adormecidas. Aos poucos, o lugar começa a ganhar vida e se fazer presença única no meio daquela noite. O dono da casa e sua companheira se prontificam a prestar serviço às pessoas que ali chegam, com vinhos e tirsos.

A calmaria tímida e sonolenta trespassa os indivíduos anônimos, esvaecendo-se a cada riso hiperbólico. Estão todos sóbrios, conversando paulatinamente. Entre pausas, uma fala e vários goles de uva fermentada. Anunciou-se a noite ritualista. Aos poucos a Igreja vai se esmorecendo perante a ebriedade nascente e inicia-se o culto dos ali presentes.

O mais belo e esbelto estava sentado no centro da mesa e, a sua direita, a mulher envolve-o com uma manta de pele de leão e uma coroa de pâmpanos. O frescor das uvas enleva todos os demais que se deliciam ao som da flauta doce. O sexo palpitante de cada um deles florescem como o desabrochar de uma rosa impaciente. Os donos da casa, depois de feito suas tarefas, entregam a chave para o homem enfeitado de Deus e retiram-se para dormir em outro ponto distante da cidade, onde a suntuosa Igreja e a singela casa já não são capazes de adentrar em seus olhos e em seus ouvidos...

Entre a Igreja e as portas fechadas da casa, morava o desconhecido. 

Dani R. F.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

No corpo

Pintura de Gustav Klimt
De que vale tentar reconstruir com palavras
      o que o verão levou
      entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?

O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.



Ferreira Gullar

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fenômeno

Uma linguagem radical
Onde as folhas desprezam o talo
A musica sabota o guitarrista
E o gato adquire um amigo

Um idioma neoniilista
Sem comadres
Ladrões e cães ociosos

Canoas correrão rio abaixo
A grande queda
A luta física
Madeira e rocha

Ele percorre em cinco minutos a desfigurada e oblíqua avenida. O pouco necessário em resumidos passos. O leve cheiro de moveis envelhecidos, um gosto rústico e a cor extraviada do sol. Nem cigarros, nem portas abertas, rodas velozes, arrepios, lagrimas, beleza, não faz dele um sujeito ou coisa.      

Lucas F. L.