terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa;
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

São José Del Rei

Bananeiras
O Sol
O cansaço da ilusão
Igrejas
O ouro na serra de pedra 
A decadência.


Oswald de Andrade

Fonte: panoramio.com

*São José Del Rei é o antigo nome da cidade de Tiradentes-MG

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ponto de Partida



O ponto
A ida
O adeus

O ponto era eu
O destino era seu
Da partida ao fim

Ficou o amar-go
Levou uma parte
De amor

Sozinho
No ponto
Da partida

Partiu
Em pedaços
Um pouco de mim

Dani R. F.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A mulher selvagem e a amantezinha



“ Francamente, minha cara, você me cansa além da conta e sem dó; quem a ouve suspirar haveria de dizer que sofre mais que as catadoras de papel sexagenárias e as velhas mendigas que recolhem pedaços de pão à porta dos cabarés.
Se ao menos seus suspiros exprimissem remorso, a honrariam um pouco; mas só traduzem a saciedade do bem-estar e a prostração do repouso. De mais a mais, você se estende a palavras inúteis: ‘Goste de mim, preciso tanto! Me console daqui, me acaricie dali!’ Está bem, vou tentar curá-la; talvez encontremos a maneira, por dois soldos, no meio de uma festa, e sem ter que ir muito longe.
(...)
Que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que incham seu peito perfumado, minha robusta coquete? E todas essas afetações aprendidas nos livros, e essa infatigável melancolia, feita para inspirar no espectador sentimento bem diverso da piedade? Na verdade, tenho vontade de lhe ensinar, às vezes, o que é a verdadeira desgraça.
A vê-la assim, minha bela delicada, os pés no lodo e os olhos vaporosamente voltados para o céu, como quem lhe pede um rei, penso num jovem batráquio a invocar o ideal. Se despreza a vigazinha frágil (que é o que eu sou hoje em dia, como você bem sabe), cuidado com a grua que pode trincá-la, comê-la e matá-la a seu gosto!
Por mais poeta que seja, não sou tão bobo quanto pensa e se me cansa muito com suas preciosas choradeiras, trato-a como mulher selvagem, ou a jogo pela janela como uma garrafa vazia.”

Charles Baudelaire

________

* Não deixem de ler esse poema em prosa na íntegra em:
Baudelaire, Charles. O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1995. p.38

segunda-feira, 19 de julho de 2010

June é apenas imaginação



FEVEREIRO DE 1932


     Para Henry: “Talvez você não tenha percebido isso, mas pela primeira vez hoje você me chocou e tirou de um sonho. Todas as suas observações, as suas histórias de June, nunca me magoaram. Nada me magoou até você tocar na fonte do meu terror: June e a influência de Jean. Que terror eu tenho quando me lembro da conversa dela e sinto através dessa como ela é carregada com as riquezas de outros, de todos os outros que amam sua beleza.
(...)
     Compreenda-me. Eu a venero. Aceito tudo que ela é, mas ela deve SER. Só me revolto se não houver nenhuma June. Não me diga que não há June exceto a June física. Não me diga, porque você deve saber. Você viveu com ela.
     Nunca temi, até o dia de hoje, o que nossas duas mentes descobririam juntas. Mas que veneno você destilou, talvez o próprio veneno que está em você. Isto é seu terror, também? Você se sente atormentado e no entanto, iludido, por uma criação de seu próprio cérebro? É o medo ou uma ilusão que você combate com palavras cruas? Diga-me que ela não é uma bela imagem. Às vezes quando conversamos sinto que estamos tentando assimilar a realidade dela. Ela é irreal até para nós, até para você que a possuiu, e para mim, a quem ela beijou.

Anaïs Nin