quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ponto de Partida



O ponto
A ida
O adeus

O ponto era eu
O destino era seu
Da partida ao fim

Ficou o amar-go
Levou uma parte
De amor

Sozinho
No ponto
Da partida

Partiu
Em pedaços
Um pouco de mim

Dani R. F.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A mulher selvagem e a amantezinha



“ Francamente, minha cara, você me cansa além da conta e sem dó; quem a ouve suspirar haveria de dizer que sofre mais que as catadoras de papel sexagenárias e as velhas mendigas que recolhem pedaços de pão à porta dos cabarés.
Se ao menos seus suspiros exprimissem remorso, a honrariam um pouco; mas só traduzem a saciedade do bem-estar e a prostração do repouso. De mais a mais, você se estende a palavras inúteis: ‘Goste de mim, preciso tanto! Me console daqui, me acaricie dali!’ Está bem, vou tentar curá-la; talvez encontremos a maneira, por dois soldos, no meio de uma festa, e sem ter que ir muito longe.
(...)
Que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que incham seu peito perfumado, minha robusta coquete? E todas essas afetações aprendidas nos livros, e essa infatigável melancolia, feita para inspirar no espectador sentimento bem diverso da piedade? Na verdade, tenho vontade de lhe ensinar, às vezes, o que é a verdadeira desgraça.
A vê-la assim, minha bela delicada, os pés no lodo e os olhos vaporosamente voltados para o céu, como quem lhe pede um rei, penso num jovem batráquio a invocar o ideal. Se despreza a vigazinha frágil (que é o que eu sou hoje em dia, como você bem sabe), cuidado com a grua que pode trincá-la, comê-la e matá-la a seu gosto!
Por mais poeta que seja, não sou tão bobo quanto pensa e se me cansa muito com suas preciosas choradeiras, trato-a como mulher selvagem, ou a jogo pela janela como uma garrafa vazia.”

Charles Baudelaire

________

* Não deixem de ler esse poema em prosa na íntegra em:
Baudelaire, Charles. O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1995. p.38

segunda-feira, 19 de julho de 2010

June é apenas imaginação



FEVEREIRO DE 1932


     Para Henry: “Talvez você não tenha percebido isso, mas pela primeira vez hoje você me chocou e tirou de um sonho. Todas as suas observações, as suas histórias de June, nunca me magoaram. Nada me magoou até você tocar na fonte do meu terror: June e a influência de Jean. Que terror eu tenho quando me lembro da conversa dela e sinto através dessa como ela é carregada com as riquezas de outros, de todos os outros que amam sua beleza.
(...)
     Compreenda-me. Eu a venero. Aceito tudo que ela é, mas ela deve SER. Só me revolto se não houver nenhuma June. Não me diga que não há June exceto a June física. Não me diga, porque você deve saber. Você viveu com ela.
     Nunca temi, até o dia de hoje, o que nossas duas mentes descobririam juntas. Mas que veneno você destilou, talvez o próprio veneno que está em você. Isto é seu terror, também? Você se sente atormentado e no entanto, iludido, por uma criação de seu próprio cérebro? É o medo ou uma ilusão que você combate com palavras cruas? Diga-me que ela não é uma bela imagem. Às vezes quando conversamos sinto que estamos tentando assimilar a realidade dela. Ela é irreal até para nós, até para você que a possuiu, e para mim, a quem ela beijou.

Anaïs Nin

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A caminho da pensão


Foi ali, naquele distinto lugar
Que houve um pouco de vida
Ungido de palavrões e bebida.

Congelou-se, esmaeceu a pequena quina
As cores das casas coloniais desgastaram-se
E o frescor do silêncio foi cortado pelo forte barulho da locomotiva.

Saí da minha absorção
Pensei, pesado, ensimesmado
Na morte violenta daquele instante.

Foram só pessoas, foram só solitários,
Errados, vazios, vadios, passantes
fundidos com o cheiro fétido do ribeirão
Onde os pequenos ratos espalham a crápula.

E que glória há num depósito cheio de podridão?
O ambiente está infestado pelas cópulas
As migalhas de alimento estão dispersas pelo chão
O cheiro da dama-da-noite confunde-se com a urina
E, depois da locomotiva, o que se ouve são gemidos
São só prazeres...

É vida orgânica se metabolizando, meu caro!


Dani R. F.
Pintura de Maurice Utrillo

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lua-de-mel madura


NOVEMBRO, 1931

Nunca fomos tão felizes nem tão infelizes. Nossas brigas são prodigiosas, tremendas, violentas. (...) Um grito meu o traz subitamente a meus braços, soluçando. E então ele me deseja fisicamente. Nós choramos e nos beijamos e atingimos o orgasmo no mesmo momento. E no momento seguinte analisamos e conversamos racionalmente. É como a vida dos russos em O Idiota. É histeria.
(...)
- O que está acontecendo a nós? Nunca dissemos coisas tão terríveis um ao outro?
E então Hugo disse: - Esta é a nossa lua-de-mel, e estamos estimulados.
(...)
Uma lua-de-mel madura, com sete anos de atraso, cheia do medo da vida. (...) É a nossa defesa contra o intruso, o desconhecido.

Anaïs Nin