segunda-feira, 12 de abril de 2010

Meu segredo



"Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber. À extremidade de mim estou eu. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Eu estou à beira de meu corpo. Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós."

Clarice Lispector.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Desassossego

 
E se umas idéias incongruentes perpassassem tua mente?
A subserviência a elas te levaria à prisão repentina
E num ímpeto, uma fúria te assolaria e acabaria com tuas forças.

Eis que me sinto inapta a qualquer ato de violência
Mesmo que minhas pernas estejam se debatendo
E minha cabeça corroída pela cólera.

Assim estou,
Assim permaneço.
Desfazendo-me
E refazendo.

Dani R.F.

domingo, 4 de abril de 2010

Henry Miller

Mais do que marginal, ele se diz Inumano.

" Outrora eu pensava que ser humano era o mais alto objetivo que um homem podia ter, mas vejo agora que isso se destinava a destruir-me. Hoje sinto orgulho em dizer que sou inumano, que não pertenço a homens e governos, que nada tenho a ver com crenças e princípios. Nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade - eu pertenço à terra! Digo isto deitado em meu travesseiro e posso sentir os chifres nascendo em minhas têmporas. Posso ver ao redor de mim todos aqueles meus malucos antepassados dançando em roda da cama, consolando-me, estimulando-me, vergastando-me com suas línguas de serpente, arreganhando os dentes e olhando-me de soslaio com seus crânios esquivos. Sou inumano! Digo isso com um riso louco e alucinado, e continuarei a dizê-lo ainda que chovam crocodilos. (...) Todo esse vômito de bêbedo, não pedido, não desejado, continuará a fluir interminavelmente através das mentes daqueles que virão no inesgotável vaso que contém a história da raça. Lado a lado com a espécie humana corre outra raça de seres, os inumanos, a raça de artistas que, incitados por desconhecidos impulsos, tomam a massa sem vida de humanidade e, pela febre e pelo fermento com que a impregnam, transformam a massa úmida em pão, e o pão em vinho, e o vinho em canção. (...) Um homem que pertence a essa raça precisa ficar em pé no lugar alto, com palavras desconexas na boca, e arrancar as próprias entranhas. É certo e justo, porque ele precisa! E tudo quanto fique aquém desse aterrorizador espetáculo, tudo quanto seja menos sobressaltante, menos terrificante, menos louco, menos delirante, menos contagiante, não é arte. O resto é falsificação. O resto é humano. O resto pertence à vida e à ausência de vida. "

In: MILLER, Henry. Trópico de Câncer. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003. p. 230-231.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fragmentos Caseiros


Surto inopinado
antes do alvor.
Gagueira insiste
não há palavras
Ouve-se vozes
de ratos.
O Queijo podre
lança o golpe.

A formiga
na fila eterna
espera o grão
a migalha
a sujeira
e decompõe-se
junto à matéria
orgânica.

No teto
os cupins
devoram
a roupa
a madeira
a carne
os sentidos.
E Proliferam-se.

Também a água
contamina-se
infiltra-se
na parede
no teto
na veia
e faz mofar
o que era belo

Os moveis
no pó.
A roupa
desgastada.
O sapato sujo
e velho
no chão.
O abandono.

A casa
um porão
fede urina
carniça
perde o viço.
Perdem-se
também
os amores.

Dani R.F.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sofreguidão


No alcance de alguma mediação incontrolável
Um ligeiro movimento final
E teu rosto estava triste
Tua viva emoção
O fim da peça
O belo teatro devaneador  
Tuas lágrimas eram suaves
Levantamos como namorados de tempos afastados
A tensão castigava-me, pois
Roubaria-te um beijo reagido
E com pura avidez seguraria teu rosto prensando-o ao meu.

Ela chorou ainda mais
Desmanchando-se em meus braços
A melancolia evasiva
Chorou nos meus sonhos
Já havia me amado 
No fim,
Havia perdido-a. 

Lucas F.L.