sexta-feira, 26 de março de 2010

Fragmentos Caseiros


Surto inopinado
antes do alvor.
Gagueira insiste
não há palavras
Ouve-se vozes
de ratos.
O Queijo podre
lança o golpe.

A formiga
na fila eterna
espera o grão
a migalha
a sujeira
e decompõe-se
junto à matéria
orgânica.

No teto
os cupins
devoram
a roupa
a madeira
a carne
os sentidos.
E Proliferam-se.

Também a água
contamina-se
infiltra-se
na parede
no teto
na veia
e faz mofar
o que era belo

Os moveis
no pó.
A roupa
desgastada.
O sapato sujo
e velho
no chão.
O abandono.

A casa
um porão
fede urina
carniça
perde o viço.
Perdem-se
também
os amores.

Dani R.F.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sofreguidão


No alcance de alguma mediação incontrolável
Um ligeiro movimento final
E teu rosto estava triste
Tua viva emoção
O fim da peça
O belo teatro devaneador  
Tuas lágrimas eram suaves
Levantamos como namorados de tempos afastados
A tensão castigava-me, pois
Roubaria-te um beijo reagido
E com pura avidez seguraria teu rosto prensando-o ao meu.

Ela chorou ainda mais
Desmanchando-se em meus braços
A melancolia evasiva
Chorou nos meus sonhos
Já havia me amado 
No fim,
Havia perdido-a. 

Lucas F.L.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carnaval

Batuque crescente Indecente
Pretas descompassadas no ritmo do tambor
Cheira a acre o seu frescor
Dança em frenesi a cabocla

Que não pára, ó maluca
Descontraída é a mãe
Ô velha caduca
Vem aqui ó ver como ela dança
Em ritmo quase cai que balança

Salve São Jorge, áfrica
Bate tumba catacumba
Veja como mexe essa mucamba
Se der gol vai ser macumba
Quer ver como no pé da samba?

Ô nega, vem trazer meu vatapá!
Vem fazer meu carnaval
Celebrar o amor carnal
Fazer a vida uma festa, minha flor
Que o tempo voa em ritmo de batuque, amor...

Dani R.F.

Gostei demais deste poema... fiz no ano passado e guardei para publicar nesse mês.. Para mim, foi minha melhor criação!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Em tempo de Carnaval...


Rio 42 - Chico Buarque


Se a guerra for declarada
Em pleno domingo de carnaval
Verás que um filho não foge à luta
Brasil, recruta
O teu pessoal

Se a terra anda ameaçada
De se acabar numa explosão de sal
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

Vai ter batalha de bombardino
A colombina na Cruz Vermelha
Vai ter centelha na batucada
Rajada de tamborim
A melindrosa mandando bala
O mestre-sala curvando a Europa
A tropa do general da banda
Dançando o samba em Berlim

Se a guerra for declarada
A rapaziada ganha na moral
Se aliste, meu camarada
A gente vai salvar o nosso carnaval

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Casamento

Há dois cômodos brancos na casa
Que separam duas vidas incomuns
e se fazem presente na estranheza do convívio relutante.

No café, a amargura do gosto quente
Mistura-se com o mau hálito do álcool da véspera
Entre um sussurro e um grito
O ódio queima as vísceras do inimigo.

À tarde, a cópula ainda indesejada
Causa violência estomacal.
O outro fica a observar como bicho faminto
As unhas vermelhas que tocam a vulva.

Sem palavras e muitos ressentimentos,
Impregnado de imagens eróticas
O casal se sacia com a masturbação
E se vê obrigado a partilhar o alimento.


Dani R.F.