segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Qualquer mulher é suburbana. A grã-fina mais besta é chorona como uma moradora do Encantado ou de Del Castilho.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

NATAL de Manuel Bandeira


Penso em Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh'alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade... A voz dos sinos... A cadência
Do rio... E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho... Evoco-te... COmponho
O ambiente cuja luz os teus cabelos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida...
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do NAtal...


Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh'alma a teus pés humilhada de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos...
Ampara a minha fronte, e que a minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana - pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus...


Clavedel, 1913

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Brunie


Uma catarse ousada, um casal e um amigo
Três jovens no viço:
dois porra-loca e um elemento estranho
Pensam estar livres por fumarem indiferença 
Deitam entre si
Promovem dor em suas camas 

O amigo era um sujeito bom
Cansado das mulheres
Agora vaga com esse casal
Espera ou já bebe um pouco de consternação

Hoje ele tem a barba por fazer
O cigarro compulsivo
O foda-se!

Essa sua nova estampa
Está autentica
Não nasceu para as mulheres
Antes era um canastrão
Hoje, um cara apático.

Lucas F.L.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Despedida - Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.
Imagem extraída de
http://1.bp.blogspot.com/_ONY2ZHHBxvs/SdOWU0RQIvI/AAAAAAAAADM/XHLAl782__o/s400/despedida.jpg

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

José Saramago

"Não escrevo para agradar e tampouco escrevo para desagradar. Escrevo para desassossegar."